Com o cair da tarde, decidiram parar e acampar junto a um pequeno ribeiro. Enquanto se apeava do cavalo, Feaglar reparou que Gar-Dena abandonara o grupo, dirigindo-se para um campo perto do ribeiro. Decidiu ir ao seu encontro mas, ao chegar perto dela, não conseguiu encontrar palavras ou assunto para lhe falar e foi ela quem, sem o encarar, voltou a tomar a iniciativa:

- Já viste tamanha beleza?

De facto, estavam num aprazível campo coberto de coloridas flores silvestres, iluminadas pela esbatida luz do Sol, que já se escondia no horizonte, dando-lhes um brilho suave e único, que só o pôr do Sol consegue criar, em breves instantes de pura excelência. Ele desejou conseguir responder àquela pergunta através de uma resposta que a sua mente de imediato formulou, mas que não seria propriamente relativa à beleza natural daquele lugar...

- Entre os dhorian não há a tradição de oferecer uma flor à mulher amada? – perguntou novamente, tentando ser um pouco mais audaciosa.

Ele aproximou-se dela e circundou-a, de maneira a puder olhá-la de frente.

- Sim. Mas não gosto de as cortar... – respondeu com sinceridade. - Se o fizer apenas apressarei a sua morte, o fim da sua beleza. Posso oferecê-las todas assim, sem as tirar do seu lugar. Não é verdade que se entrega um coração sem se ter de o arrancar?

Gar-Dena olhou-o fixamente, tão fixamente que ele pôde reparar nos finos círculos negros que circundavam os seus belos olhos castanhos. A expressão da jovem tornou-se mais carregada, com se algo no seu íntimo a atemorizasse. Chegou mesmo a arrepender-se de os seus sentimentos a terem tornado tão arrojada.

- Serias capaz de oferecer o teu, mesmo sabendo que era uma oferta condenada? – perguntou-lhe a princesa, com um ar sério. - Que tendo de o arrancar, poderias perdê-lo para sempre?

(...)

- Não, Gar-Dena!... – interrompeu. - Tu és uma pessoa e não um rio que corre sem razão, apenas esperando chegar ao mar. A minha vida está nas tuas mãos, Gar-Dena... Se te conseguisse explicar!... Se te pudesses ver pelos meus olhos...

Os longos dedos dela envolveram as suplicantes mãos do rei.

- Feaglar... O que eu pudesse ver não me daria asas para voar para longe, não faria este momento ser eterno, sem passado, presente ou futuro... – confessou comovida. - Não vês as coisas terríveis que eu trouxe para a tua vida? Se percebesses, nem me olharias. Se eu soubesse...

Ele não entendia o significado daqueles receios obscuros e o seu discurso ia-se caracterizando  por uma crescente e esperançosa ousadia.

- O que eu vejo, o que senti quando te vi, foi a certeza de saber que te esperava, mesmo sem te conhecer. Agora que te conheço, nada mais tenho para esperar... Sim, desconheço esses perigos a que te referes, mas a decisão é minha... E se eles forem o preço que tenho de pagar por te  ter encontrado, não me queixarei do meu destino.

Gar-Dena quase deixou escapar uma lágrima. Sentiu-se tão humana, tão viva, como se respirasse pela primeira vez. Sentia-se assolada por sensações genuínas, contraditórias, dispersas, mas muito fortes...

 

Goor - página 9 e 10