Algumas coisas sempre me provocaram estranheza no famoso artigo de Eduarda Sousa, "O grande sono da ficção científica" - outras nem por isso. O parágrafo que me cria mais irritação na garganta é este:

   "Existem discussões e especulações sobre a morte da FC. Na Internet, os argumentos são muitos, desde o rápido avanço da ciência que a FC não acompanha, até à constatação de que já vivemos num cenário de FC, o que torna o género obsoleto ou redundante."

 

     

 

     A FC só vive de tecnologia? É esse o seu "miolo"? Não creio. Mas vamos por aí, já que é ideia "mainstream": 

    Pensar que, na actualidade, estamos a viver um auge tecnológico e científico (e que isso limita a FC) é uma ideia tão alarve como viver no século XIX e pensar o mesmo - e aposto que havia quem o pensasse. De uma vez por todas: o nosso presente de "maravilhosas e insuperáveis concretizações" será apenas mais um tosco degrau no olhar do futuro. Se isso não acontecer é mau sinal, pois a humanidade terá estagando ou regredido - algo que, de qualquer das maneiras, será transitório, tal como a Idade das Trevas o foi...

    "Já vivemos num cenário de FC"? A sério? Em que país vivem? Em que mundo? E a tecnologia já deixou K.O. a imaginação humana? Então esperem pela Zira e pelo Dr. Zaius porque a nossa "missão" terminou. "Já vivemos"... Eu só pensaria assim se tivesse nascido no Século XII (por exemplo) e caísse abruptamente na actualidade. Mas não sou uma personagem do famoso filme de Jean-Marie Poiré nem tenho a maquineta imaginada por Wells para ir ao futuro. 

   "Já vivemos"... São os telemóveis que vos levam a pensar isso? A internet? Deixem que vos diga que este presente deixa muito a desejar em relação às expectativas que tinha no passado. Muitas! E não sou o único a pensar assim...

 

   Vamos lá a ver...

  A menos que ocorra uma mudança no paradigma cultural da maioria dos portugueses (que tarda mas chegará, digo eu, que sou um optimista e dado a saltos de fé...), em que o educandário reside em programa telivisivos como o "Somos Portugal", novelas e "Casas dos Segredos", etc, a FC será sempre uma expressão minoritária. Há aqui uma imcompatibilidade - desculpem a dicotomia, como terão de me desculpar por ser, a espaços, eufémico, mas é esta a minha visão da realidade. 

  Os valores dessa minoria leitora de FC serão variáveis (quase sempre devido a influências exteriores) mas não estará a dormir, em coma, nem morrerá. Existirão sempre milhões a dizer que o "Big Brother" é (apenas) uma ruminância televisiva e uns milhares a responder que é um personagem fictício de uma obra literária. Serão apenas centenas? Que sejam dez! Todavia, acredito na evolução e julgo que o regresso em força da FC acontecerá num mundo menos preocupado com o açaime economicista. Morrer? A FC morre no dia em a humanidade desaparecer. Até lá, aguentem com ela! 


"Fiction is not the bread of life, nor the wine of life, nor for long the satisfactory thou of life, but it hunger mingles with these hungers and is still there when the others are sated. Man dreams before he eats, after he thirsts, and in order to sleep. Fiction has deep roots, and will not disappear with a change of tools, fashions, or even planets. It provides that link in the chain of awareness that relates man to the urmensch of his subconscious. Fiction was there in the dark of the cave, at the beginning, and it will be there in the ruins at the end, oral, chiseled, or computed. It will, because we can´t help it."


Wright Morris

publicado por sá morais às 22:18