Este é um daqueles livros que não pode ser comprado nem lido por engano. Se o forem ler pensando que estão perante algo que não é e forem avessos a “novas experiências”, o mais certo será nem passarem das primeiras páginas.

Nota-se que David Soares tem prazer em escrever e que o faz para quem gosta de o ler – alicerçando assim um estilo muito sui generis (pouco avesso a aspectos comerciais) e uma relação especial com os leitores. Prova disso é a escrita meticulosa (um crivo, portanto) e características como as passagens em latim – neste caso atrevo-me a extrapolar: o latim surge como um “código restritivo” usado pelo autor de forma consciente e que não é meramente justificado pela época retratada. Pretende-se que seja realmente uma barreira que apenas alguns poderão transpor – é para eles o livro e não para os que não entendem o “código”.

Para ler David Soares também é preciso algum background que permita uma interpretação menos óbvia da simbologia que, caso contrário, não passará de um incompreensível acessório. O livro O Evangelho do Enforcado mergulha com mestria no mundo que ilustra, revelando as sombras que as personagens ocultam no vulgar imaginário. No entanto, talvez para alguns essa “ânsia de negra e bruta autenticidade”, acabe por transbordar, mediante a sensibilidade individual de cada leitor. Aqui teremos de recordar o estilo da obra e a época retratada. Atenção que não sou apologista de realismos excessivamente “negros” apenas para chocar (ou estar na moda) ou de meras dicotomias bicolores. É preciso recordar que, ao contrário do que (em especial) o cinema nos tenta convencer, a Idade Média não foi nenhum estendal de virtudes cavalheirescas. E se o papel das mulheres neste livro afronta os meus ideais, isso é plenamente natural e justificável – detesto a Idade Média e o papel de “vergonhosa Eva/Madalena fornicadora – mero sub-produto da mitologia patriarcal” que quase todas as mulheres carregavam. Anne de Beaujou e Joana d’Arc foram algumas das poucas excepções e veja-se como a última acabou! Era assim e não há como contornar essa realidade.

As personagens e os cenários são bastante credíveis. Existe um omnipresente gosto pelo detalhe que faz a obra transpirar um realismo pulsante, sempre muito bem combinado com os elementos do Fantástico. Pessoalmente preferi as temáticas dos livros anteriores, mas isso não me impede de constatar que este é um excelente livro, um elixir que (mesmo sendo agridoce) alguns deviam tomar para variar, pelo menos por uma vez, da dietalollypop.

Andreia Torres

publicado por Andreia Torres às 22:27