Opinião: O enredo inicia-se com o despertar de Calédra, para quem o longo sono forçado se assemelhou mais a um doloroso cárcere. Inicialmente amargurada e crente de que aquele tempo não era o dela, é notável a evolução da personagem até ao momento em que o inverso se faz sentir – algo que decorreu sem atropelos, no seu devido tempo.
Fiquei com a sensação de que mais do que a história da revolução de um povo contra aquilo que seriam os primórdios de uma ditadura, trata-se de dar a conhecer Calédra, uma personagem complexa e intrínseca, que se encontra bem longe da ideia convencional de heroína. Aliás, mais do que uma heroína, ela é uma líder, acartando consigo tanto as virtudes quanto as atrocidades.
Por outro lado, senti que houve uma certa falta de atenção em relação às restantes personagens. Eles têm conteúdo, personalidade distintas, passados que as atormentam, factos que nos são ditos e outros que se deixam adivinhar… E ainda assim, estava constantemente com a sensação de que faltava algo. Talvez um maior aprofundamento das suas sensações, que por vezes surgiam apenas no papel, mas falhavam em serem transmitidas ao leitor… Ou talvez seja um problema apenas meu, não sentido por outros possíveis leitores. Tenho consciência de que essa hipótese não é inválida.
Quanto à narrativa, não me agradou o modo como foi descrita a sucessão dos acontecimentos, e em algumas alturas o autor poderia ter oferecido mais pormenores, envolvendo mais o leitor. Estas são, contudo, as únicas coisas negativas que tenho a apontar.
Por fim, é de ressaltar o pormenor de que não foi seguida a linha de “os maus são esta raça e os bons aquela” que tantas vezes se vê e que tanto me tem feito torcer o nariz. Apesar da existência de várias raças, e de haver uma natural maioria para um lado ou para o outro, cada um deles é tratado como uma cabeça independente, que mesmo com as ideologias e crenças que lhes são naturais, fazem as suas escolhas dependendo mais no modo de pensar que na raça a que pertence. Ademais, a narrativa não é exactamente “o bem contra o mal”, assemelhando-se muito mais às realidades que marcam a História do nosso próprio mundo.