Inconsciente de como o seu mundo mudou ou até de como exactamente sobreviveu à passagem do tempo, Calédra Denaris desperta de um sono demasiado longo. E o mundo que descobre em seu redor é-lhe completamente desconhecido. Sem nada de seu e com muito que assimilar, a orgulhosa guerreira terá de encontrar um caminho em direcção às suas respostas, ao mesmo tempo que, perante tudo o que mudou na hierarquia e nos princípios do mundo, se descobre no papel de defensora para uma raça que não é a sua.
Há algo de cativante e de particularmente fascinante na forma em como, desde as primeiras páginas, a personalidade de 
Calédra
 se revela em toda a sua peculiar força. Heroína improvável, não por fragilidades que tenha, mas por uma posição algo afastada da clássica figura heróica, 
Calédra
 surge como uma personagem que, sendo ambígua em certos aspectos (as suas acções tanto podem ser gloriosas como censuráveis), é, contudo, quase inabalável nas suas certezas e convicções. Com um temperamento difícil, uma aparente falta de sensibilidade e uma certa medida de arrogância, pareceria, à primeira vista, uma figura pouco merecedora de empatia. Mas não é isso que acontece. Através das sombras de um passado tenebroso, de um lado mais sensível que a armadura da guerreira impassível dificilmente poderia deixar prever e de um longo e duro caminho de redenção, 
Calédra
 revela-se fascinante precisamente porque raramente é completamente transparente. Nem bem, nem mal, mas um ponto algures entre ambos.
Também a história cresce à medida que a complexidade da sua protagonista vai sendo mais e mais desenvolvida. O que começa por ser, de certo modo, um caminho pessoal na assimilação de um mundo em colisão com o passado, torna-se um conflito mais global e indispensável, já que as ameaças estendem-se a alvos bem mais vastos que a guerreira. E é por isso que a história envereda mais e mais por um caminho de lutas e conflitos, sendo inclusive as principais relações entre personagens exploradas neste contexto.
Também no que toca a personagens secundárias há uma certa imprevisibilidade e é no caso de Delkon que as revelações se tornam mais surpreendentes. Surgindo como pouco mais que um jovem sonhador, o dhorian revela-se como uma figura bastante mais intrigante do que poderia parecer e, ainda que a sua história pareça terminar de uma forma um pouco brusca, o facto é que é ele o centro de uma certa perturbação no rumo dos acontecimentos.
Cativante, uma história onde todo um conflito de raças e de valores se concentra numa figura que, não o sendo, reflecte simultaneamente o melhor e o pior da natureza humana e que, de um início intrigante a um final que deixa muitas perguntas no ar, nunca perde o interesse, quer pela história, quer pelas figuras que a definem. Muito bom.